A nossa liberdade

29 05 2013

Dentre os projetos de vida de muitas pessoas, é comum ouvirmos que elas querem ser livres para viver. Queremos todos ser livres para fazer o que bem entendermos. Queremos ser livres para vivermos intensamente sem medir muito as consequências, sair por aí sempre a sorrir e poder gritar a pulmões plenos: “eu sou livre!”.

Eu acho engraçado falar em liberdade nesse sentido tão libertino. É como se não soubéssemos, coisa que deveríamos saber, que nossa liberdade não é uma liberdade que se conquista, mas sim uma liberdade que se constrói – tão logo nascemos. A nossa liberdade é construída, ela não está pronta. Não podemos alcançá-la como se luta por um objetivo.

E é justamente por ela não estar pronta que, ao longo dessa busca, experimentamos momentos tão livres – quando a encontramos por vezes, quando quase terminamos de construi-la – que nos sentimos prontos para utilizá-la. Ledo engano. Acabamos por fazer coisas que nos maltratam, falar coisas que não devíamos, tomar rumos sem saída, e o pior, caminhos sem volta.

A liberdade quando não pronta faz isso. Nos coloca em uma armadilha, nos faz ter coragem de carregar pesos maiores do que os que suportamos. Te faz entrar em um túnel fazendo crer que você vai enxergar sem luz e que no fim tudo vai dar certo. Nos engana. Ela incentiva: “Vá! Você é livre, voe!”, mas não ensina a voar. Você se lança, tenta voar, cai e ela não te ajuda a se levantar. Do mesmo modo que ela nos coloca livre para voar, também nos coloca livre para nos levantarmos sozinhos. E é aí que começamos a compreender o verdadeiro sentido de ser livre.

Quando se percebe esse sentido de modo mais concreto, quando se experimenta esse valor real da liberdade, é que percebemos que ela é um conceito, e não um estado de espírito pleno. É um conceito que devemos construir dia a dia na nossa vida, na busca da plenitude de nossos sentimentos, e não de nossos atos. Liberdade nada mais é do que um aprendizado, acúmulo de cápsulas de saber viver. E não um coletivo de impulsos, que nos afundam na ilusão de sermos livres.





Um caminho sem sentido

12 11 2012

Às vezes penso que eu penso demais. Reflito demais sobre as coisas, talvez tentando descobrir algum sentido que faça sentido em nossa vida. Acontece que nunca encontro. Penso também que a vida sem sentido talvez seja a resposta. Mas uma vida sem sentido não quer dizer que não tenhamos um caminho, ou vários caminhos, a seguir. Muito pelo contrário.

Ser sem sentido é ser livre, e ser livre é ter total liberdade de olhar pra frente, ver tantas nuances do nascer e do por do sol, da chuva que tudo deixa sem cor, que evidencia a hora da não cor, ou do bom tempo que ilumina tudo e nos embebeda de felicidade – prefiro uma mistura dos dois, melancolia, dosada, faz bem. Diante de tantos caminhos, nós, com toda nossa falta de sentido, devemos escolher um, alguns que seja, e seguir. Seguir por um caminho significa fazer escolhas. E fazer escolhas significa assumir uma postura diante da vida, para que a vida não assuma uma postura diante de você.

No escuro dos meus pensamentos, no vale das reflexões, eu enxergo cada um ao meu modo. Lá ninguém usa as máscaras que todos nós usamos de maneira cordial e teatral todos os dias. Até com nossos espelhos de parede. Lá as máscaras caem, mas elas não quebram. Elas se desmancham, eu tenho esse cuidado. Elas se desmancham, escorrem pelo corpo queimando feito brasa. Cada mancha vermelha que fica é uma repreensão pelo uso dela. Começo a ver faces escuras, e então eu moldo cada um como penso que são na verdade, ou deveriam ser para meu completo contentamento ou desagrado e reprovação.

Sem máscaras, cada um escolhe seu caminho com mais honestidade. Menos sorrisos – que mais nos atinge com um tiro do que nos aproxima. Menos abraços – que mais gelam do que acolhem. E menos apertos de mãos que parecem nos levar a caminho da morte, e não selar a lealdade entre duas pessoas.

Neste ponto chego a pensar que nosso maior espelho é o outro: é quem convive com a gente e pega todos nossos males (sim, porque o que temos de bom é difícil observarem, quanto mais de se espelharem). Cada vez que me olho nos espelhos que são os outros, vejo mais de mim, vejo mais de minhas fraquezas, vejo mais do caminho que opto todos os dias por seguir. Meu medo de continuar me enxergando é maior! Meu medo corrói, pois se enxergar de verdade, e não apenas em um pedaço de vidro que reflete imagens – e delas já estou cansado – é perceber a própria ignorância. Por isso não quebro as máscaras. Eu as refaço, devolvo aos donos e sigo com abraços, sorrisos e apertos de mãos por detrás de cada reflexo. É o sem sentido caminho a seguir.

 

 





Porque mudar é bom.

6 11 2012

Muitos entoam a famosa canção “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante” (assim como outras músicas famosas) sem se aterem ao significado forte e marcante destas palavras. O fato de sermos – e não sei realmente se é caso de preferência – seres que mudam o tempo todo, a torto e a direito, diz muito sobre nós.

Falar em metamorfose é até engraçado quando se trata de nós. Nós que seguimos um calendário. Quando nascemos, com pelo menos uma obrigação já saltamos ao mundo: a de celebrar aniversários. Ano após ano. Aí vamos conhecendo outras obrigações que nunca mudam: carnaval, natal, férias. Ufa! Quanto padrão. Cadê a mudança?

A vida mundando

A vida .

 

Por mais que tudo se encaixe dentro de padrões que guiam a humanidade, nada permanece igual. Somos todos inconstantes, e somos nós que guiamos os padrões. Portanto, tirando de lado todo o clichê brega e chato que a frase carrega: você que faz a mudança.

Às 23h15 as coisas são de um modo. Às 23h16, de outro. Nossa inconstância é tal que nos faz pensar! E pensamos. Pensamos muito, voamos para longe, revisitando sonhos, tentando curar feridas, procurando o que causou tanta dor, ou tanto riso… Quando vemos, já são 23h30 e as coisas estão completamente diferentes. Num instante se é feliz, n’outro estamos mergulhados na melancolia de nossas ilusões.

Nada do que foi, será de novo do jeito que já foi um dia, diz outra canção. E aí, se encaixando em tudo aquilo que achamos que não muda, que ano após ano invade nosso calendário, é onde percebemos as maiores mudanças. E eu sou adepto de que a mudança é uma chance que temos para fazer as coisas do nosso jeito, ajustar os padrões ao nosso padrão.

As pessoas mudam. As pessoas deixam de existir, e nós deixamos de existir pras pessoas. De uma década pra outra sonhos são desfeitos e outros erguidos, a paz pode deixar de existir, mas novas vidas podem se aproximar da gente. A angústia mora na ânsia de conhecer o que nos guarda o minuto seguinte, mas a graça maior da vida, que é esperar e fazer acontecer, mora aí. Por vezes resta um vazio. Esse vazio que fica é a mudança. Que logo é preenchido, lembra-se? Somos uma metamorfose ambulante. Quer queira, quer não.





A voz da ignorância

31 07 2012

Todos nós temos aquele ataque de fúria momentâneo. Aquele em que falamos “sem pensar”, mesmo pensando. Aquele em que agimos sem medir as conseqüências, quando nos esquecemos de certos princípios que nos foram ensinados, e, a bem da verdade, assumimos uma postura ignorante.

Até pouco tempo atrás essa postura ficava no esquecimento. Vinha o pedido de desculpa e, dias a mais, dias a menos, tudo acabava bem. Hoje não. Nossa ignorância hoje ganhou voz, tela, reprodução, e fica marcada.

O meu medo maior é que essa voz que ganhamos cada vez mais, que a cada dia fala mais alto, esteja revelando absurdos maiores. Dando voz a uma ignorância não momentânea, mas oculta sob um sorriso falso e uma bondade fajuta.

Escondendo-se atrás dos teclados

Covardia virtual: você tem coragem de falar pessoalmente o que fala na internet?

O conselho que sempre recebi ainda tem muito valor: “pense bem antes de falar”. Uns ainda mensuram “pense três vezes antes de falar”.  É o que está faltando. Talvez revelar ao mundo certas barbaridades verbalizadas não seja a melhor opção, porque assusta. E assusta muito.

As Olimpíadas de Londres nos mostraram dois exemplos de que a ignorância agora tem voz: uma judoca brasileira, Rafaela, foi desclassificada, e massacrada no Twitter por ter perdido. Por ser negra, foi chamada de “macaca”. Um competidor britânico teve que ler, após ter perdido sua medalha, que ele decepcionou o seu pai. O pai dele morreu no ano passado com câncer.

Penso que a única justificativa para essa crueldade seja o fato de afastarmos tanto os ídolos, as pessoas públicas, de nossa própria realidade, que pra gente eles não sofrem como nós. Não sentem como nós. Tenho certeza que essas pessoas não diriam isso a eles pessoalmente. Pelo menos não a esportistas, fortes que são.

Afinal, que peso tem nossas palavras? Que compromisso temos com a moral? Unindo-se às mídias modernas, que deixam público quase tudo o que pensamos, temos a covardia. Essa covardia que realmente dá voz à nossa ignorância e por vezes libera nossos piores monstros. Nos escondemos atrás de um teclado, no conforto de nossa casa, e aí escrevemos tudo o que queremos, doa a quem doer – e o pior é que dói.





Quando surge a fera.

24 05 2012

Por vezes eu insisto em questionar: quais os nossos valores? Cada um de nós tem o seu valor, sua determinação, sua linha de vida. Criamos, dentro desses conceitos, um parâmetro para avaliarmos os outros. Elaboramos, por nossa conta e risco, o limite entre o aceitável e o inaceitável. Eu criei o meu.

O meu limite, aquele que determina que eu fale “É esquisito, mas tudo bem” ou “Como assim? Por que as pessoas são assim?”, é um pouco conservador, confesso.  E talvez seja esse conservadorismo que faça surgir no meu peito uma dor inexplicável ao ver o definhamento de um ser humano próximo a mim.

Recebi de uma chorosa e angustiada amiga a notícia: “minha tia ateou fogo ao próprio corpo”. As palavras dela atravessaram os 200 km que nos separam, saíram pelo fone do meu celular e me chocaram. “Como assim? Por que as pessoas são assim?”. Infelizmente, as pessoas são assim. Elas ateiam fogo em sua história e nós, que perto vivemos, sofremos um pouco com o calor.

Há pessoas que, infelizmente, levam a vida de modo solitário, melancólico. Uma vida onde a deturpação dos valores tradicionais vira estereótipo.

O vazio de uma trajetória assim vai acordando o monstro que todos nós temos adormecido no inconsciente. Se esse monstro se encontra com a mediocridade de quem vende sua companhia por uma roupa cara, ele cresce assustadoramente, por que ele sabe que ao menor desfiar da roupa, a companhia se vai.

E é aí que penso que está tudo errado. É por isso que insisto em questionar: Quais são nossos valores?

O conceito de certo e errado não existe de maneira estática, mas o bom senso, que luta contra ideologias, existe. A integridade ainda existe. A dignidade tem que existir. Será que o peso da angústia que machuca a consciência diminuiu? Ficou mais leve? Todos merecemos uma chance para acharmos um caminho melhor, e não asas para nosso demônio voar ou alimento para nosso monstro crescer.

É triste ver um monstro acordar assim, de maneira tão avassaladora. Acordar e se rebelar com seu passado. Se revoltar com quem foi durante a vida toda. Posto que monstro é, os sentidos já não se preocupam mais em não ferir quem vive por perto. E assim dá início ao fim de sua trajetória: colocando fogo no corpo, dá forma a uma fera, mas sem perceber que a chance de encontrar uma bela ficou para trás há muito tempo.





Custa me fazer um carinho?

24 02 2012

O cenário era um bloco carnavalesco na região do Baixo Gávea, no Rio de Janeiro. Resolvi me sentar em um canteiro, enquanto dois amigos conversavam bem próximo dali. Como de costume, comecei a observar as pessoas ao meu redor. Logo me vi envolvido na conversa de umas mulheres que contavam como sobreviveram por dois anos na Indonésia, apontando as lindas ondas como seu principal alimento. Só me dei conta que estava prestando atenção demais na conversa delas, sem disfarçar, quando meus amigos me chamaram rindo, perguntando se a conversa delas estava boa.

Eu mergulhei na história daquelas surfistas, navegando no embalo de suas aventuras em um paraíso. Era uma bela história, contada no meio de um tumultuado e barulhento bloco de carnaval. Não o local mais adequado, mas foi onde a ouvi.

Pode até ser falta de educação, mas eu fico atento ao que falam, ao que olham, assistem perto de mim, o tempo todo. Acho que desse exercício de observação eu ganho muito, principalmente quando ouço histórias interessantes.

É possível, com um pouco de sensibilidade, imaginar a vida que existe por trás do sorriso espontâneo de uma senhora que atravessa a rua. É instigante imaginar o que um pai sente ao observar seu pequeno filho se divertindo inocentemente com confetes e serpentinas. É enriquecedor ouvir histórias, principalmente quando quem conta não sabe que você está ouvindo, pois a naturalidade vence a necessidade de se fazer crível.

Já em outro cenário, também tumultuado, a rodoviária do Rio de Janeiro, me peguei observando um casal de idosos que estava sentado ao meu lado na área de embarque. Ela reclamava sem parar; do calor, da demora, do sorvete caro. Ele apenas balançava a cabeça e suspirava profundamente. Era de fazer dó aquele homem ao lado daquela mulher reclamona. De repente, ela agarra seu braço e pede um beijo. Ele nega e ela retruca, com calma: “Custa me fazer um carinho? Eu quero um carinho seu”. Então eu fiquei foi com dó dela.

Nesse último caso, eu penso ter percebido o amor em uma de suas formas mais simples: no cotidiano de um casal. Achei aquela senhora corajosa. Não sei se eu teria essa coragem de assumir que eu quero apenas um carinho, assim, ainda mais em público. Eu vi naquele pedido o amor, puramente o amor. E naquela coragem apenas a sabedoria de uma vida que lhe mostrou, durante anos de casamento, que ela podia seguramente pedir aquele carinho… e ser atendida.

 





Consumo: Busca pela felicidade?

2 06 2011

Gosto quando conversas me empolgam. Gosto quando conversas me desafiam. E adoro quando conversas rendem um texto aqui para o blog. “Eu tento, mas olho pra humanidade e não encontro uma solução sequer.” Foi o que ouvi em uma conversa. Se eu concordo? Bom, vamos ver.

A verdade é que parece que um gato pegou um novelo e o rolou por aí e a bagunça somos nós. A humanidade criou, desde os primórdios de sua existência, um sistema ao qual somos completamente dependentes. Vivemos na ilusão da busca da felicidade, felizes com nossos produtos sem ao menos conhecermos a origem das matérias primas: o consumo.

Qual o seu preço?

Qual o seu preço?

Somos irrevogável e completamente dependentes do consumo. Temos na nossa vida um objetivo, todos nós, até mesmo os depressivos. É nossa função social maior: ocupar um espaço, ter uma utilidade. Queremos chegar a algum lugar nesse mundo, na nossa história. E para isso precisamos de… consumir. Não adianta. Se você precisa de livros, você terá de comprá-los, ou pegar emprestado, que seja, mas alguém os comprou, os consumiu. Mesmo o mais pacato fazendeiro precisa de uma enxada, no mínimo, que certamente não brotou no solo, e mesmo que brotado tivesse, ele precisaria de uma terra, e terras são vendidas.

Simplesmente não há volta. Sempre nos inserimos em algum grupo, somos ligados a algum dos infinitos rótulos instituídos. Seja você um nerd, um geek, um “cool”, um produto da subcultura “punk”, você precisa de algo que te identifique assim. Os nerds e geeks precisam de seus vídeo games, livros, MacBooks, o cool precisa, obrigatoriamente, possuir um iPod, o tênis da moda, a roupa do momento, ou… está fora. Assim também o punk, os góticos, enfim, o consumo permeia nossa existência e nossa sobrevivência.

Como chegamos nesse ponto? Muitos fatores determinam. Há como sair? Jamais. A ganância move o ser humano. Toda a raça humana. O que muda é a intensidade com a qual ela se manifesta. Em uns ela vem com força, em outros nem tanto. Nosso dia-dia depende do consumo, e o consumo move o mundo. Consumimos todos como se não houvesse amanhã, mas o amanhã, ao que parece, chegou.

Update: O amigo @brunobarreto postou agora no Twitter um link para uma notícia no mínimo bizarra. Um chinês vendeu um rim para comprar um iPad2. Está lá no R7 a notíciaChega a ser triste, depois de passar pelo engraçado, ler isso. Mas é isso aí: a ditadura do consumo da qual não podemos fugir nem viver sem! As mães que se cuidem, pois já tem gente de olho nesse comércio…

 

Update 2: Nos comentários, o Hélio Monteiro deixou uma dica legal, um texto super legal sobre consumo consciente. Nele você vai encontrar uma tabela explicando como consultar as fontes do que você está comprando, por exemplo:

Pode conter: trabalho infantil
Lavouras de cana, café, frutas e uma série de outros produtos agrícolas podem usar crianças – que deveriam estar na escola.
O que fazer: prefira fornecedores e revendedores com o selo Amigo da Criança.
Onde se informar: www.fundabrinq.org.br/portal/alias__abrinq/lang__pt-BR/tabid__343/default.aspx

Vale a pena o clique! 

Deixo vocês com o vídeo “A história das coisas” (Story of Stuff, no original em inglês) que traz a trajetória do capitalismo , relacionada ao que discuti:

Mais do projeto no site.

Guru ambiental Annie Leonard explica como funciona o sistema linear do capitalismo, e como isso prejudica o planeta.








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